5.Conclusões ou considerações
O terror como ferramenta de pressão religiosa e política, será talvez, a herança mais perigosa deixada pelo séc. XX. Cidades e gente do mundo inteiro são alvo deste tipo de violência que, antes de resolver questões, incrementa a divisão dos povos radicalizando posições.
Antes de mais é preciso não confundir islamismo com fundamentalismo islâmico. Em muitos países árabes o governo é oficialmente muçulmano e em alguns casos, como na Argélia, impôs á população uma visão ideológica do Islão, tentando resgatar raízes culturais através de uma identidade própria que pudesse fazer frente à influência ocidental que restara como herança do período colonial.
Nem só os fundamentalistas pregam a aplicação tradicionalista do Alcorão. Alguns países impõem o tradicionalismo como política de estado. Muitos muçulmanos condenam os aspectos demasiados conservadores que qualquer religião pode ter, ou levantam-se indignados com as violências perpetradas por grupos ou estados que mais do que fundamentalistas são fanáticos.
Em resumo, o que está em questão é um conflito entre uma nova ordem mundial, baseada nos interesses de potências, e um movimento que apoia sua contestação numa cultura e tradição milenar.
Normalmente consideram-se fundamentalismos e integralismos como conceitos estritamente vinculados e como as duas formas mais evidentes de intolerância.
A intolerância tem raízes biológicas, manifesta-se entre os animais mesmo nos racionais como territorialidade, fundindo-se em reacções emotivas: não suportamos os que são diferentes de nós, porque têm a pele de outra cor, porque falam outra língua que não compreendemos, porque não comem porco ou comem cães, porque fazem tatuagens, ou simplesmente, porque pensam e têm valores e formas de vida diferentes.
A intolerância pelo diferente e desconhecido é natural na criança como qualquer outro instinto. À criança educa-se a pouco e pouco a tolerância assim como se educa a controlar os esfíncteres. Infelizmente, se quase todas alcançam o controlo do próprio corpo, a tolerância continua a ser um problema de educação constante mesmo no estado adulto, por quanto durante toda a vida estamos expostos permanentemente a esse “trauma” da diferença.
Debruçamo-nos amiúde a estudar doutrinas de multiculturalidade mas esta “selvática intolerância” foge a qualquer definição ou posição crítica e a intolerância mais perigosa é precisamente aquela que surge da ausência de qualquer doutrina, como resultado de impulsos elementares.
Educar para a tolerância adultos que se confrontam por razões éticas, religiosas, ideológicas será tempo perdido, solução demasiadamente tardia, porque a intolerância “ataca-se” desde a raiz e através de uma educação constante.
Comecemos por desmistificar o fundamentalismo islâmico.
O mundo islâmico é tão unido como o cristão, ou seja, é muito relativa a sua unidade. Em termos religiosos, os muçulmanos dividem-se entre sunitas e chiitas e ramificam-se a partir destas grandes tendências. Alem disso, a religião combina-se com as tradições nacionais e regionais. A maioria dos muçulmanos vive a leste do Irão, no Paquistão, Bangladesh e Indonésia. Estas gentes nunca se mobilizaram em torno das propostas fundamentalistas. Por outro lado, os árabes abominam os turcos, também muçulmanos; mais ou menos como os franceses abominam os alemães, também cristãos (pelo menos até 1945).
Existem tendências fundamentalistas no islamismo, como no cristianismo como em todas as religiões. Existe fundamentalismo no Oriente como no Ocidente. Existe fundamentalismo sempre que se considera uma única interpretação uma única verdade e se defende uma obediência cega e completa onde o dialogo não tem entrada.
Estas tendências não existem apenas entre as religiões têm também as suas versões laicas. Vejamos a história do socialismo soviético ao longo do séc. XX, ou neo liberalismo que sustem a pretensão de dominar o passado e o futuro e estabelecer o Pensamento Único.
Governos, sociedades, em suma o mundo inteiro, é afectado pela intolerância à diferença por crises de identidade, por lutas de poder, por fundamentalismos, por fanatismos. São crises de referências num mundo em mudanças alucinantes.
O tema não se esgota e não podemos concluir. Provavelmente demoraremos décadas ou séculos a encontrar a solução e talvez, mais alguns milénios a aplica-la. Mudar mentalidades é a tarefa mais difícil da humanidade e a objectividade, diálogo e tolerância não constituem uma tendência nata do ser humano
“O conhecimento das pessoas acerca uma das outras deve ser promovido; sem o conhecimento mútuo não haverá a compreensão mútua e sem a compreensão mútua não haverá respeito mútuo e sem respeito mútuo não haverá confiança mútua, e sem confiança mútua não haverá paz, mas sim inevitáveis conflitos entre as civilizações”
(Roman Hertzog, Presidente da República Alemã, 1997)
(Agora fui explicita Saltapocinhas?)

12 Comments:
Subscrevo com admiração e prazer este teu texto.
Abraços
:D
explicita!
um dia quero que me leias isto tudo em voz alta, ok?
;)
Parece esclarecedor embora tenha lido enviesadamente porque a esta hora tenho o tempo a esgotar-se. Logo à noite venho aqui ler tudo com calma. Uma das coisas que eu escrevi logo no inicio do meu post é que sei muito pouco (para não dizer que não sei nada) sobre a história das religiões. Limitei-me a dar a minha opinião sobre o que se passa agora. Mas logo, com mais tempo venho aqui ler tudo com atenção.
Obrigada.
Acho que finalmente encontrei uma passoa á qual o nome de enciclopedia andante assente "like a glove".
ATENÇÂO: as palavras acima escritas devem ser entendidas como um elogio, uma crítica positiva, algo de bom e com o qual te deves congratular. Por outras palavras, não invadas o meu Blog com posts ofensivos á minha pessoa, pq eu vim em paz!
.....é pena que ainda haja quem duvide, como pode alguém aceitar viver subjugado, a tamanha selvajaria mental e moral, excelente texto.....
:)*
Obrigado pela seriedade do(s) post.
Bom e útil trabalho.
Demasiadas incoerências e contradições para que possa considerar o texto explícito. Este fundamentalismo muçulmano não tem nada a ver com cor de pele, por exemplo. E é o único terrorismo à escala mundial. Os seus defensores muito gostam de escamotear este pormenor.
Carlos> abraços
Guevara> ainda bem
Eu> pq? não consegues tu ler? :)
Saltapocinhas> apenas pretendi esclarecer, pela consideração que te tenho.
Cool> estou a anos luz de ser enciclopédia, apenas tenho obrigação de saber algo sobre este tema pq faz parte da minha área. (e nunca pretendi ofender ng nem dentro e nem fora da blogosfera, pela simples razão que não me parece que a ofensa seja um bom argumento)
Chuvamiuda> "como pode alguém aceitar viver subjugado, a tamanha selvajaria mental e moral," tens a resposta nos pontos dos post abaixo
Miguel> de nada
Macaquinho> onde digo que este fundamentalismo tem que ver com cor de pele? Passo à frente a parte do seus defendores porque obviamente ou não leste todos os posts ou isso não era comigo. As incoerências podes especificá-las e o que não ficou explicito pergunta que eu explico de novo.
Alyia,
Este teme é sempre bastante polémico.
No entanto concordo inteiramente com a forma como acabas o post, ou seja, acima de tudo é necessário promover o conhecimento mútuo.
Na realidade toda esta questão se resume ao facto de estarmos a falar de culturas completamente diferentes, por isso a única forma de haver entendimento é mesmo promovendo a compreensão de uma pela outra.
Bjs.
Å®t_Øf_£övë> é só a esse ponto que pretendo chegar desde o inicio: conhecimento e tolerancia nao de um mas de ambos os lados em simultaneo, esse será o unico caminho para a resolução (talvez e infelizmente daqui a muitos e muitos anos, após muitas e muitas vitimas de ambos os lados)
(e que o tema é polémico, eu já sabia há vários anos, por isso que passei tantos dias a evitar comentá-lo nos blogs que visitava, porque não dá para ser discutido assim)
"Não se consegue apertar a mão a um punho cerrado" (Indira Gandhi).
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