quarta-feira, novembro 23, 2005

homenagem ao meu amigo L.F.

Ter amigos é muito bom mas ter um grande amigo é algo incomparável!

Recordo-te alto (eu diria grande para caramba), com aquele teu cabelo preto encaracolado (sem nunca ter visto pente na vida, que tu eras um homem ocupado), a indumentária inconfundível, sempre entre o preto e cinza (“quando é que largas o luto?” perguntava-te a “drª” todos os dias) e a incontestável “pinta” de criança reguila.

Recordo-te a entrar pela escola com aquela “treta” enfiada pelos ouvidos, em altos berros (nunca percebi para que usavas headphones se afinal toda a gente ouvia), aos saltos como um puto, com aquele semblante feliz de sempre, a distribuir “bom dia” mesmo quando chovia a “potes”.
E os putos a adorarem-te, a juntarem-se àquele teu ar contagiante que dava outra luz à escola, até chegarem à aula onde participavam entusiasticamente ou te ouviam como que hipnotizados e te respeitavam e admiravam como que por magia.
E os colegas mais conservadores a mandarem-te bocas dissimuladas, a sussurrarem entre dentes “não tem emenda, olhem para aquilo é pior que os miúdos” e eu a rir.
E os problemas habituais do dia-a-dia (às vezes bem complicados) que tu transformavas em coisas vulgares e simples porque “ninguém me paga para me chatear, só me pagam para trabalhar”.

Recordo os cursos que fizemos juntos, só porque nos apetecia.
E as viagens para lá e para cá e o meu coração aos saltos quando o teu pé ficava mais pesado que o corpo todo e eu via o chaparro lá ao fundo, cada vez mais próximo.
E os desenhos malucos que fazias num caderno igual àquele em que nós registávamos apontamentos.
E quando tu falavas a turma inteira se calava, nem era por dizeres mais verdades, mas porque tinhas o condão de nos silenciar ou de simplesmente nos pôr a rir à gargalhada.
E aquele trabalho, a famosa pesquisa, os dias e noites que passamos de volta daquilo, as discussões que tivemos (porque eu nem sou teimosa, teimoso eras tu).
E a maldita estatística, o pc a bloquear, os gráficos a desaparecerem e eu a “passar-me” e tu serenamente “calma miúda” (chamaste-me sempre miúda desde que nos conhecemos, como se eu nem tivesse nome)

Recordo as primeiras sessões de formação que demos juntos, o tempo que demorámos a prepará-las para depois chegarmos lá e fazermos tudo diferente porque “isto assim vai sair uma trampa e vão mandar-nos à mer…, não vão aprender nada” segredaste-me tu enquanto eu sorria a pensar “isto vai dar bronca da grossa”.

Recordo as férias que passávamos juntos. O que nos fazias andar só para ver uma “treta” qualquer, porque tinhas lido não sei onde, que aquilo era do tempo não sei de quem e ninguém te havia de acusar de ser ignorante por preguiça.
E as “corridas” a nadar que eu ganhava sempre “porque fazes batota” dizias tu.

Recordo as longas conversas e os silêncios; os conselhos que davas de borla; a ajuda, a compreensão o apoio das horas menos boas; as discussões e os risos; os disparates no meio da conversa séria com ar de quem profere uma frase histórica.

Recordo tudo isso que passamos juntos. Tudo que aprendi contigo. Toda a tua amizade verdadeira. Toda a tua filosofia de vida.
E o teu riso.
Não recordo o dia em que me despedi de ti.

Faz-me falta hoje e sempre esse amigo que foste.